quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

PANETONE: Um Grande Manifesto-Epopéia ao Seu Favor

CANTO I

🥖 MANIFESTO PANETONISTA

Contra a Modinha Açucarada e a Favor da Tradição que Espera

O triunfo do Panetone.

Chega.
Todo fim de ano a mesma encenação: alguém diz que “ninguém gosta de fruta cristalizada” enquanto mastiga o terceiro pedaço de panetone. Mentem para si mesmos. Mentem para o tempo.

O Panetone não é tendência.
Não pede curtida.
Não precisa se reinventar a cada Natal.

Ele fermenta.
E quem fermenta, espera.

O Chocotone é barulho. É pressa. É excesso tentando esconder o vazio com recheio. Escorre, derrete, cansa. Vive do impacto imediato, como tudo que não confia no próprio sabor.

O Panetone não escorre.
Ele sustenta.

Não se come Panetone com gula. Come-se com respeito.
Fatia-se. Serve-se. Divide-se.
Ele exige mesa, faca, prato e um mínimo de civilização.

Fruta cristalizada não é erro.
É memória preservada.
É o doce que não implora.

O Chocotone tenta agradar.
O Panetone permanece.

E quando a moda passa, quando o açúcar enjoa, quando o hype derrete sob o calor da própria ansiedade…
é o Panetone que ainda está ali, seco, firme, intacto, esperando o próximo Natal como quem sabe que o tempo trabalha a seu favor.

Que exista o Chocotone.
Mas que se saiba:
ele não substitui, não supera, não corrige.

O Panetone não precisa vencer.
Ele já venceu ao sobreviver.


CANTO II

📜 POEMA

Canto Final do Pão que Espera

Antes do ruído,
antes do embrulho brilhante,
antes do açúcar pedir desculpas,
houve o pão alto.

Cresceu em silêncio,
fermentando o tempo
como quem entende
que pressa não alimenta.

No seu corpo,
frutas suspensas —
verões guardados,
doces que aprenderam a esperar.

Então veio o outro,
escuro, jovem, escorrendo promessa,
gritando sabor
como quem teme o esquecimento.

Derreteu.

O chocolate cede ao calor.
A tradição não.

Quando a mesa esvaziou
e o Natal virou memória,
era o Panetone que ainda estava ali,
firme como um calendário antigo.

Não pediu aplauso.
Não pediu reinvenção.
Apenas voltou,
como sempre volta.

Pois há coisas
que não precisam ser modernas
para serem eternas.


CANTO III

🍞 A PANETONÍADA

Canto Único da Guerra Doce que Definiu o Natal

No princípio,
quando o forno ainda era fogo
e o fogo ainda era rito,
ergueu-se o pão.

Não um pão qualquer,
mas o pão que ousou crescer
para além da necessidade,
alto como torre,
lento como promessa.

Fermentou em silêncio,
enquanto o mundo aprendia a esperar.

E esperar
era virtude.

Seu miolo nasceu dourado,
cheio de ar e memória,
carregando fragmentos do sol
presos em açúcar e tempo:
as frutas,
antigas como histórias contadas à mesa
por avós que falavam pouco
e sabiam muito.

Chamaram-no Panetone.
E o nome ficou.

Vieram eras.
Vieram guerras.
Vieram modas que se dissolveram
como neve em mãos inquietas.

O Panetone ficou.

Ano após ano,
voltava sem pedir licença,
sem alterar sua forma,
sem pedir desculpas por existir
do jeito que sempre existiu.

Então, num Natal tardio,
quando o mundo já gritava demais,
surgiu o outro.

Escuro.
Brilhante.
Escorrendo.

Veio o Chocotone,
filho da pressa,
neto do marketing,
criado em laboratório de tendência
onde ninguém espera nada crescer.

Seu recheio prometia tudo.
Seu sabor gritava.
Sua embalagem implorava atenção.

Era doce,
mas inquieto.
Intenso,
mas efêmero.

Onde passava, derretia.
Onde ficava, cansava.

E disseram:
— Este é o futuro.

Mas o futuro suava.

O Chocotone marchou pelas mesas,
conquistou paladares apressados,
seduziu mãos que não usam faca,
foi rasgado, esmagado, consumido em pé,
sem prato, sem pausa, sem respeito.

O Panetone observava.

Não se moveu.
Não respondeu.
Não se reinventou.

Esperou.

Pois o Panetone sabe
que o tempo trabalha a favor
daquilo que não teme o silêncio.

Vieram os dias quentes.
Vieram as sobras.
Vieram os Natais passados.

O chocolate escorreu,
manchou guardanapos,
derreteu sob o próprio excesso.

O Panetone secou.
E permaneceu.

Firme.
Íntegro.
Comível dias depois,
semanas depois,
como um monumento esquecido na mesa
que ainda cumpre sua função.

E quando o último convidado saiu,
quando a última risada virou eco,
quando o Natal virou memória difusa,

era o Panetone
que ainda estava ali.

Partido em fatias imperfeitas,
cheio de migalhas e história,
esperando alguém que entendesse
que nem tudo precisa ser novo
para ser necessário.

E então compreenderam — tarde, mas compreenderam:

O Chocotone acontece.
O Panetone retorna.

O Chocotone agrada.
O Panetone sustenta.

O Chocotone grita:
— Olhem para mim!

O Panetone sussurra:
— Eu estarei aqui.

E assim não houve golpe final,
nem vitória ruidosa,
nem coroação explícita.

Houve apenas permanência.

Pois vencer,
na guerra do tempo,
não é brilhar mais forte —

é durar mais.

E enquanto houver forno,
enquanto houver mesa,
enquanto alguém ainda souber esperar,

o Panetone se erguerá novamente,
alto, lento e inevitável,

como sempre foi. 


CANTO IV

🎂 A GRANDE PANETONÍADA DEFINITIVA

Crônica do Pão que Não se Curvou ao Tempo

Cantai, ó fornos antigos,
cantai, ó mesas manchadas de migalhas,
cantai o pão que não pediu permissão
para atravessar os séculos.

Pois antes das vitrines,
antes dos sabores edição limitada,
antes do Natal virar campanha,
existia o crescimento lento.

E desse crescimento
ergueu-se o Panetone.

Não nasceu pequeno.
Não nasceu humilde.
Nasceu alto,
como tudo que sabe
que precisará durar.

Seu corpo inflou com paciência,
aprendeu o ritmo da espera,
entendeu que crescer
não é inflar —
é sustentar.

E em seu miolo
guardou fragmentos do mundo:
frutas arrancadas do tempo,
presas em açúcar
como fósseis comestíveis
de verões que já passaram.

Era pão,
mas também era memória.

E o mundo girou.

Impérios caíram.
Tecnologias prometeram eternidade.
Sabores surgiram jurando substituir tudo.

O Panetone não respondeu.
Ele voltou.

Todo ano,
no mesmo formato,
com o mesmo cheiro,
com a mesma coragem de não mudar.

Vieram os que zombaram:
— Velho demais.
— Seco demais.
— Fruta demais.

O Panetone ouviu.
E continuou existindo.

Então, num Natal inquieto,
numa era de ansiedade coletiva,
quando ninguém mais esperava nada crescer,
surgiu o outro.

O Chocotone.

Escuro como anúncio noturno.
Brilhante como embalagem que promete redenção.
Recheado até o limite
onde o excesso tenta virar virtude.

Era doce,
mas nervoso.

Derretia antes mesmo de ser servido.
Escorria como se fugisse de si.
Precisava ser consumido rápido,
antes que se tornasse apenas
uma poça de intenção fracassada.

E o mundo aplaudiu.

Chamaram-no inovação.
Chamaram-no evolução.
Chamaram-no necessário.

O Panetone permaneceu calado.

Pois quem atravessa gerações
não discute com tendências.

Vieram mesas divididas.
Famílias separadas por opiniões rasas.
Discussões acaloradas
sobre frutas cristalizadas
como se fossem questões de Estado.

O Chocotone avançava,
ocupava espaços,
manchava toalhas,
pedia guardanapos extras.

O Panetone aguardava a faca.

Sempre a faca.
Sempre o prato.
Sempre o gesto civilizado
de quem sabe que comer
também é ritual.

O tempo passou —
como sempre passa.

O chocolate cedeu ao calor.
O recheio cansou.
O excesso enjoou.

Sobrou o pão.

Um pouco mais seco, talvez.
Mas ainda pão.
Ainda inteiro.
Ainda digno.

E quando o Natal acabou,
quando as luzes foram guardadas,
quando o ano virou apenas promessa distante,

era o Panetone
que ainda estava ali.

Testemunha silenciosa
de que a pressa sempre perde
para o que sabe esperar.

E então entenderam,
não com aplausos,
mas com resignação:

O Chocotone nasce para o momento.
O Panetone nasce para o retorno.

Um grita:
— Agora!

O outro responde:
— Sempre.

E assim,
sem coroação,
sem sangue,
sem açúcar derramado além do necessário,

o Panetone venceu.

Não por força.
Não por moda.
Mas por aquilo que nenhuma tendência suporta:

permanência.

E enquanto houver Natal,
enquanto houver forno aceso,
enquanto alguém ainda souber
que esperar também é sabor,

o Panetone se erguerá outra vez,
alto, paciente, inabalável,

lembrando ao mundo
que tradição não precisa vencer —

ela apenas fica.


CANTO V

🍰A ULTRAPANETONÍADA

Ou: Do Pão que Esperou, da Doçura que Gritou e da Fé que Permaneceu

Cantai outra vez,
ó fornos que rangem como portas antigas,
cantai, ó mãos enfarinhadas
que conhecem o peso do tempo.

Pois ainda não dissemos tudo.
Ainda não foi suficiente.
O Panetone exige demora,
e esta história também.

No princípio do princípio,
antes mesmo do Natal ter data fixa,
antes do calendário ser mercadoria,
antes da palavra “especial” perder o sentido,
houve o gesto simples:

misturar.
esperar.
assar.

E desse gesto repetido
— sem pressa, sem anúncio, sem presságio —
ergueu-se novamente o pão alto.

O Panetone não foi criado para impressionar.
Foi criado para voltar.

Voltar quando o ano cansa.
Voltar quando a mesa precisa de algo
que não discuta,
que não provoque,
que apenas esteja ali.

Seu crescimento não é explosão.
É confiança.

Cada fruta em seu corpo
é um fragmento de mundo preservado:
laranjas que já viram outros sóis,
uvas que atravessaram estações,
açúcar que aprendeu a conter o tempo
sem destruí-lo.

Dizem que incomoda.
Que é estranho.
Que é antigo demais.

Mas tudo que dura
incomoda quem corre.

E então, mais uma vez,
num Natal apressado,
num mundo que já não sabe sentar sem olhar o relógio,
o Chocotone retornou.

Veio com nova embalagem.
Veio com novo nome.
Veio com recheio ainda mais recheado,
como se o excesso pudesse substituir sentido.

Era doce,
mas não sabia esperar.

Seu sabor explodia
e morria no mesmo instante.
Sua promessa era agora
ou nunca.

E o mundo — cansado, faminto, ansioso —
acreditou.

Houve quem proclamasse:
— O antigo acabou.
— O novo chegou.
— Não precisamos mais do pão que demora.

Mas o tempo ouviu isso antes.
E sorriu.

Vieram os dias quentes.
Vieram as sobras esquecidas.
Vieram os Natais empilhados uns sobre os outros
como caixas no fundo do armário.

O chocolate cedeu.
Sempre cede.

O brilho virou mancha.
O excesso virou enjoo.
O entusiasmo virou silêncio.

E lá estava ele.
Outra vez.

O Panetone,
menos macio, talvez,
mas ainda inteiro,
ainda honesto,
ainda disposto a ser repartido.

Porque o Panetone não é feito para o impacto.
É feito para a partilha.

Não se come sozinho, escondido, correndo.
Ele pede pausa.
Ele pede faca.
Ele pede que alguém diga:
“Quer um pedaço?”

E então, quando tudo parece apenas tradição vazia,
quando o Natal ameaça virar só data,
só embrulho,
só ruído,

o Panetone permanece
como um lembrete silencioso.

De que o verdadeiro significado do Natal
não está na novidade,
nem no excesso,
nem no doce que grita.

Está naquilo que volta.
Naquilo que espera.
Naquilo que se oferece inteiro
sem precisar mudar de forma.

Pois o Natal não é o instante —
é o retorno.

É sentar à mesa.
É repartir o pão.
É acreditar, mesmo cansado,
que há valor no gesto repetido,
no tempo compartilhado,
na fé simples de que algo pode ser o mesmo
e ainda assim fazer sentido.

E assim,
não por moda,
não por vitória ruidosa,
mas por confiança,

o Panetone encerra a epopeia
como sempre encerra o ano:

não como espetáculo,
mas como sinal.

De que enquanto houver fé
no encontro,
na espera,
e no pão partido em silêncio,

o Natal continuará existindo —
não no brilho,
mas no significado.

E isso,
nenhuma tendência derrete. 🥖✨

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