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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Teleco, o Coelhinho

A primeira vez que li este conto foi naquela coleção Para Gostar de Ler e não a entendi muito bem.
Voltei diversas vezes para ler o final. Como uma coisa daquelas seria possível???
É uma história meio boba no início, mas vai tomando proporções maiores até... o final... Mostra como as coisas na vida mudam, relações entre pessoas, etc.
Murilo Rubião é um autor sensacional.


“Três coisas me são difíceis de entender, e uma quarta eu a ignoro completamente: o caminho da águia no ar, o caminho da cobra sobre a pedra, o caminho da nau no meio do mar, e o caminho do homem na sua mocidade.”

(Provérbios, XXX, 18 e 19)



– Moço, me dá um cigarro?

A voz era sumida, quase um sussurro. Permaneci na mesma posição em que me encontrava, frente ao mar, absorvido com ridículas lembranças.

O  importuno pedinte insistia:

–    Moço, oh! Moço! Moço me dá um cigarro?

Ainda com os olhos fixos na praia, resmunguei:

Vá embora, moleque, senão chamo a polícia.

–    Está bem, moço. Não se zangue. E, por favor; saia da minha frente, que eu também gosto de ver o mar.

Exasperou-me a insolência de quem assim me tratava e virei-me, disposto a escorraçá-lo com um pontapé. Fui desarmado, entretanto. Diante de mim estava um coelhinho cinzento, a me interpelar delicadamente:

– Você não dá é porque não tem, não é, moço?

O seu jeito polido de dizer as coisas comoveu-me. Dei-lhe o cigarro e afastei-me para o lado, a fim de que melhor ele visse o oceano. Não fez nenhum gesto de agradecimento, mas já então conversávamos como velhos amigos. Ou, para ser mais exato somente o coelhinho falava. Contava-me acontecimentos extraordinários, aventuras tamanhas que o supus com mais idade do que realmente aparentava.

Ao fim da tarde, indaguei onde ele morava. Disse não ter morada certa. A rua era o seu pouso habitual. Foi nesse momento que reparei nos seus olhos. Olhos mansos e tristes. Deles me apiedei e convidei-o a residir comigo. A casa era grande e morava sozinho   acrescentei.

A explicação não o convenceu. Exigiu-me que revelasse minhas reais intenções:

Por acaso, o senhor gosta de carne de coelho? Não esperou pela resposta:

– Se gosta, pode procurar outro, porque a versatilidade é o meu fraco.

Dizendo isto, transformou-se numa girafa.

– A noite – prosseguiu – serei cobra ou pombo. Não lhe importará a companhia de alguém tão instável?

Respondi-lhe que não e fomos morar juntos.

Chamava-se Teleco.

Depois de uma convivência maior, descobri que a mania de metamorfosear-se em outros bichos era nele simples desejo de agradar ao próximo. Gostava de ser gentil com crianças e velhos, divertindo-os com hábeis malabarismos ou prestando-lhes ajuda. O mesmo cavalo que, pela manhã, galopava com a gurizada, à tardinha, em lento caminhar, conduzia anciãos ou inválidos às suas casas.

Não simpatizava com alguns vizinhos, entre eles o agiota e suas irmãs, aos quais costumava aparecer sob a pele de leão ou tigre. Assustava-os mais para nos divertir que por maldade. As vítimas assim não entendiam e se queixavam à polícia, que perdia o tempo ouvindo as denúncias. Jamais encontraram em nossa residência, vasculhada de cima a baixo, outro animal além do coelhinho. Os investigadores irritavam-se com os queixosos e ameaçavam prendê-los.

Apenas uma vez tive medo de que as travessuras do meu irrequieto companheiro nos valessem sérias complicações. Estava recebendo uma das costumeiras visitas do delegado, quando Teleco, movido por imprudente malícia, transformou-se repentinamente em porco-do-mato. A mudança e o retorno ao primitivo estado foram bastante rápidos para que o homem tivesse tempo de gritar. Mal abrira a boca, horrorizado, novamente tinha diante de si um pacifico coelho:

O  senhor viu o que eu vi?

Respondi, forçando uma cara inocente, que nada vira de anormal.

O homem olhou-me desconfiado, alisou a barba e, sem se despedir, ganhou a porta da rua.

A mim também me pregava peças. Encontrava-se vazia a casa, já sabia que ele andava escondido em algum canto, dissimulado em algum pequeno animal. Ou mesmo no meu corpo sob a forma de pulga, fugindo-me dos dedos, correndo pelas minhas costas. Quando começava a me impacientar e pedia-lhe que parasse com a brincadeira, não raro levava tremendo susto. Debaixo das minhas pernas crescera um bode que, em disparada, me transportava até o quintal. Eu me enraivecia, prometia-lhe uma boa surra. Simulando arrependimento, Teleco dirigia-me palavras afetuosas e logo fazíamos as pazes.

No mais, era o amigo dócil, que nos encantava com inesperadas mágicas. Amava as cores e muitas vezes surgia transmudado em ave de todas as espécies inteiramente desconhecidas ou de raça já extinta.

Não existe pássaro assim!

Sei. Mas seria insípido disfarçar-me somente em animais conhecidos.

O primeiro atrito grave que tive com Teleco ocorreu um ano após nos conhecermos. Eu regressava da casa da minha cunhada Emi, com quem discutira asperamente sobre negócios de família. Vinha mal-humorado e a cena que deparei ao abrir a porta da entrada, agravou minha irritação. De mãos dadas, sentados no sofá da sala de visitas, encontravam-se uma jovem mulher e um mofino canguru. As roupas dele eram mal talhadas, seus olhos se escondiam por trás de uns óculos de metal ordinário.

O  que deseja a senhora com esse horrendo animal? – perguntei, aborrecido por ver minha casa invadida por estranhos.

– Eu sou o Teleco – antecipou-se, dando uma risadinha.

Mirei com desprezo aquele bicho mesquinho, de pêlos ralos, a denunciar subserviência e torpeza. Nada nele me fazia lembrar o travesso coelhinho.



Neguei-me a aceitar como verdadeira a afirmação, pois Teleco não sofria da vista e se quisesse apresentar-se vestido teria o bom gosto de escolher outros trajes que não aqueles.

Ante a minha incredulidade, transformou-se numa perereca. Saltou por cima dos móveis, pulou no meu colo. Lancei-a longe, cheio de asco.

Retomando a forma de canguru, inquiriu-me, com um ar extremamente grave:

– Basta esta prova?

– Basta. E daí? O que você quer?

-De hoje em diante serei apenas homem.

 -Homem? – indaguei atônito. Não resisti ao ridículo da situação e dei uma gargalhada:

– E isso?   Apontei para a mulher. É uma lagartixa ou um filhote de salamandra?

Ela me olhou com raiva. Quis retrucar, porém ele atalhou:

– É Tereza. Veio morar conosco. Não é linda?

Sem dúvida, linda. Durante a noite, na qual me faltou o sono, meus pensamentos giravam em torno dela e da cretinice de Teleco em afirmar-se homem.

Levantei-me de madrugada e me dirigi à sala, na expectativa de que os fatos do dia anterior não passassem de mais um dos gracejos do meu companheiro.

Enganava-me. Deitado ao lado da moça, no tapete do assoalho, o canguru ressonava alto. Acordei-o, puxando-o pelos braços:

– Vamos, Teleco, chega de trapaça.

Abriu os olhos, assustado, mas, ao reconhecer-me, sorriu:

-Teleco?! Meu nome é Barbosa, Antônio Barbosa, não é, Tereza?

Ela, que acabara de despertar, assentiu, movendo a cabeça. Explodi, encolerizado:

– Se é Barbosa, rua! E não me ponha mais os pés aqui, filho de um rato!

Desceram-lhe as lágrimas pelo rosto e, ajoelhado, na minha frente, acariciava minhas pernas, pedindo-me que não o expulsasse de casa, pelo menos enquanto procurava emprego.

Embora encarasse com ceticismo a possibilidade de empregar-se um canguru, seu pranto me demoveu da decisão anterior, ou, para dizer a verdade toda, fui persuadido pelo olhar súplice de Tereza que, apreensiva, acompanhava o nosso diálogo.

Barbosa tinha hábitos horríveis. Amiúde cuspia no chão e raramente tomava banho, não obstante a extrema vaidade que o impelia a ficar horas e horas diante do espelho. Utilizava-se do meu aparelho de barbear, da minha escova de dente e pouco serviu comprar-lhe esses objetos, pois continuou a usar os meus e os dele. Se me queixava do abuso, desculpava-se, alegando distração.

Também a sua figura tosca me repugnava. A pele era gordurosa, os membros curtos, a alma dissimulada. Não media esforços para me agradar, contando-me anedotas sem graça, exagerando nos elogios à minha pessoa.

Por outro lado, custava tolerar suas mentiras e, às refeições, a sua maneira ruidosa de comer, enchendo a boca de comida com auxílio das mãos.

Talvez por ter-me abandonado aos encantos de Tereza, ou para não desagradá-la, o certo é que aceitava, sem protesto, a presença incômoda de Barbosa.

Se afirmava ser tolice de Teleco querer nos impor sua falsa condição humana, ela me respondia com uma convicção desconcertante:

       – Ele se chama Barbosa e é um homem.

O canguru percebeu o meu interesse pela sua companheira e, confundindo a minha tolerância como possível fraqueza, tornou-se atrevido e zombava de mim quando o recriminava por vestir minhas roupas, fumar dos meus cigarros ou subtrair dinheiro do meu bolso.

Em diversas ocasiões, apelei para a sua frouxa sensibilidade, pedindo-lhe que voltasse a ser coelho.

Voltar a ser coelho? Nunca fui bicho. Nem sei de quem você fala.

– Falo de um coelhinho cinzento e meigo, que costumava se transformar em outros animais.

Nesse meio tempo, meu amor por Tereza oscilava por entre pensamentos sombrios, e tinha pouca esperança de ser correspondido. Mesmo na incerteza, decidi propor-lhe casamento.

Fria, sem rodeios, ela encerrou o assunto:

– A sua proposta é menos generosa do que você imagina. Ele vale muito mais.

As palavras usadas para recusar-me convenceram-me de que ela pensava explorar de modo suspeito às habilidades de Teleco.

Frustrada a tentativa do noivado, não podia vê-los juntos e íntimos, sem assumir uma atitude agressiva.

O canguru notou a mudança no meu comportamento e evitava os lugares onde me pudesse encontrar.

Uma tarde, voltando do trabalho, minha atenção foi alertada pelo som ensurdecedor da eletrola, ligada com todo o volume. Logo ao abrir a porta, senti o sangue afluir-me à cabeça: Tereza e Barbosa, os rostos colados, dançavam um samba indecente.

Indignado, separei-os. Agarrei o canguru pela gola e, sacudindo-o com violência, apontava-lhe o espelho da sala:

-É tu, não é um animal?

-Não, sou um homem! – E soluçava, esperneando, morto de medo pela fúria que via nos meus olhos.

A Tereza, que acudira, ouvindo seus gritos, pedia:

– Não sou um homem, querida? Fala com ele:

-Sim, amor, você é um homem.

Por mais absurdo que me parecesse, havia uma trágica sinceridade na voz deles. Eu me decidira, porém. Joguei Barbosa ao chão e lhe esmurrei a boca. Em seguida, enxotei-os.

Ainda da rua, muito excitada, ela me advertiu:

– Farei de Barbosa um homem importante, seu porcaria!



Foi a última vez que os vi. Tive, mais tarde, vagas notícias de um mágico chamado Barbosa a fazer sucesso na cidade. A falta de maiores esclarecimentos, acreditei ser mera coincidência de nomes.

A minha paixão por Tereza se esfumara no tempo e voltara o interesse pelos selos. As horas disponíveis eu as ocupava com a coleção.

Estava, uma noite, precisamente colando exemplares raros, recebidos na véspera, quando saltou, janela adentro, um cachorro. Refeito do susto, fiz menção de correr o animal. Todavia não cheguei a enxotá-lo.

      – Sou o Teleco, seu amigo, afirmou, com uma voz excessivamente trêmula e triste, transformando-se em uma cotia.

-E ela?   Perguntei com simulada displicência.

-Tereza…  sem que concluísse a frase, adquiriu as formas de um pavão.

Havia muitas cores… O circo… Ela estava linda… Foi horrível…   Prosseguiu, chocalhando os guizos de uma cascavel.

Seguiu-se breve silêncio, antes que voltasse a falar:

-O uniforme… muito branco… cinco cordas… amanhã serei homem… – as palavras saíam-lhe espremidas, sem nexo, à medida que Teleco se metamorfoseava em outros animais.

Por um momento, ficou a tossir Uma tosse nervosa. Fraca, a princípio, ela avultava com as mutações dele em bichos maiores, enquanto eu lhe suplicava que se aquietasse. Contudo ele não conseguia controlar-se.

Debalde tentava exprimir-se. Os períodos saltavam curtos e confusos.

– Pare com isso e fale mais calmo – insistia eu, impaciente com as suas contínuas transformações.

-Não posso, tartamudeava, sob a pele de um lagarto.

Alguns dias transcorridos perdurava o mesmo caos. Pelos cantos, a tremer, Teleco se lamuriava, transformando-se seguidamente em animais os mais variados. Gaguejava muito e não podia alimentar-se, pois a boca, crescendo e diminuindo, conforme o bicho que encarnava na hora, nem sempre combinava com o tamanho do alimento. Dos seus olhos, então, escorriam lágrimas que, pequenas nos olhos miúdos de um rato, ficavam enormes na face de um hipopótamo.

Ante a minha impotência em diminuir-lhe o sofrimento, abraçava-me a ele, chorando. O seu corpo, porém, crescia nos meus braços, atirando-me de encontro à parede.

Não mais falava: mugia, crocitava, zurrava, guinchava, bramia, triscava.

Por fim, já menos intranqüilo, limitava as suas transformações a pequenos animais, até que se fixou na forma de um carneirinho, a balir tristemente. Colhi-o nas mãos e senti que seu corpo ardia em febre, transpirava.

Na última noite, apenas estremecia de leve e, aos poucos, se aquietou. Cansado pela longa vigília, cerrei os olhos e adormeci. Ao acordar, percebi que uma coisa se transformara nos meus braços. No meu colo estava uma criança encardida, sem dentes. Morta.



****



No conto “Teleco, o Coelhinho”, a busca de humanidade esconde o desejo de superar a indiferença e o desprezo dos homens. A narrativa em primeira pessoa nos apresenta o ponto de vista do homem que recebe o coelhinho em sua casa. Encantado pela meiguice de Teleco, o narrador descobre que “a mania de transformar-se em outros bichos era nele simples desejo de agradar o próximo.” (RUBIÃO, 16ª ed., 1993:22).

sexta-feira, 27 de abril de 2018

O Guarani

O Guarani, de José de Alencar, é um dos romances brasileiros mais longos e um dos meus favoritos.
A primeira vez que eu o vi, achava que nunca iria terminar. Há algumas semanas atrás terminei de lê-lo pela segunda vez.
A obra é bastante influenciada pelo Romantismo na sua primeira fase (se não me engano), toma o índio brasileiro, representado por Peri, filho de Ararê, como herói nacional; quase um cavaleiro medieval, salvo devidas proporções. Peri é bravo, heroico, sábio, virtuoso e aliado a tudo isso ama com pureza e devoção à jovem Cecília.
O livro descreve muito bem as riquezas tropicais da natureza brasileira, tanto suas maravilhas e seus perigos. A história tem um desenvolvimento excelente, o livro é longo, mas a partir do começo do clímax, é impossível não devorar as páginas; a peleja final é alucinante  o que se passa no epílogo não deixa a desejar. E quando tudo termina fica a saudade de acompanhar mais das aventuras de Peri e Ceci. Aliás, o desfecho d'O Guarani é bastante original por que deixa uma sensação de mistério ao leitor.
Havia muitos capítulos para escolher, mas eu gosto bastante desse em especial.


VII 


A PRECE


A tarde ia morrendo.

O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas, que iluminava com os seus últimos raios.
A luz frouxa e suave do ocaso, deslizando pela verde alcatifa, enrolava-se como ondas de ouro e de púrpura sobre a folhagem das árvores.
Os espinheiros silvestres desatavam as flores alvas e delicadas; e o ouricuri abria as suas palmas mais novas, para receber no seu cálice o orvalho da noite. Os animais retardados procuravam a pousada; enquanto a juriti, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos com que se despede do dia.
Um concerto de notas graves saudava o pôr-do-sol, e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrar a aspereza de sua queda, e ceder à doce influência da tarde.

Era a Ave-Maria.

Como é solene e grave no meio das nossas matas a hora misteriosa do crepúsculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Criador para murmurar a prece da noite!
Essas grandes sombras das árvores que se estendem pela planície; essas gradações infinitas da luz pelas quebradas da montanha; esses raios perdidos, que, esvazando-se pelo rendado da folhagem, vão brincar um momento sobre a areia; tudo respira uma poesia imensa que enche a alma.
O urutau no fundo da mata solta as suas notas graves e sonoras, que, reboando pelas longas crastas de verdura, vão ecoar ao longe como o toque lento e pausado do ângelus.
A brisa, rogando as grimpas da floresta, traz um débil sussurro, que parece o último eco dos rumores do dia, ou o derradeiro suspiro da tarde que morre.
Todas as pessoas reunidas na esplanada sentiam mais ou menos a impressão poderosa desta hora solene, e cediam involuntariamente a esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado de um certo temor.
De repente, os sons melancólicos de um clarim prolongaram-se pelo ar quebrando o concerto da tarde; era um dos aventureiros que tocava a Ave-Maria.
Todos se descobriram.
D. Antônio de Mariz, adiantando-se até à beira da esplanada para o lado do ocaso, tirou o chapéu e ajoelhou.
Ao redor dele vieram grupar-se sua mulher, as duas moças, Álvaro e D. Diogo; os aventureiros, formando um grande arco de círculo, ajoelharam-se a alguns passos de distancia.
O sol com seu último reflexo esclarecia a barba e os cabelos brancos do velho fidalgo, e realçava a beleza daquele basto de antigo cavalheiro.
Era uma cena ao mesmo tempo simples e majestosa a que apresentava essa prece meio cristã, meio selvagem; em todos aqueles rostos, iluminados pelos raios do ocaso, respirava um santo respeito.
Loredano foi o único que conservou o seu sorriso desdenhoso, e seguia com o mesmo olhar torvo os menores movimentos de Álvaro, ajoelhado perto de Cecília e embebido em contemplá-la, como se ela fosse a divindade a quem dirigia a sua prece.
Durante o momento em que o rei da luz, suspenso no horizonte, lançava ainda um olhar sobre a terra, todos se concentravam em um fundo recolhimento, e diziam uma oração muda, que apenas agitava imperceptivelmente os lábios.
Por fim o sol escondeu-se; Aires Gomes estendeu o mosquete sobre o precipício, e um tiro saudou o ocaso.
Era noite.
Todos se ergueram; os aventureiros cortejaram e foram-se retirando a pouco e pouco.
Cecília ofereceu a fronte ao beijo de seu pai e de sua mãe, e fez uma graciosa mesura a seu irmão e a Álvaro.
Isabel tocou com os lábios a mão de seu tio, e curvou-se em face de D. Lauriana para receber uma bênção lançada com a dignidade e altivez de um abade.
Depois, a família chegando-se para junto da porta, dispôs-se a passar um desses curtos serões que outrora precediam à simples mas suculenta ceia (...).

domingo, 24 de dezembro de 2017

Natal na Barca... Furada!

Dingobel, dingobel acabou papel... Acabou nada! Eu trouxe hoje uma das únicas sessões de qualidade deste bendito blog: Literatura.
Lembro da primeira vez que li este conto de Lygia Fagundes Telles e do misto de sensações que ele me trouxe e culminando no final singelo, porém expressivo e que traduz uma das facetas do espírito natalino. Aliás, o livro do qual ele foi tirado, "Para Gostar de Ler", foi um dos primeiros que tive contato com contos e crônicas e me apaixonei à primeira vista. Vale MUITO a pena conferir a coleção.


Natal na barca

Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.

O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.

Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.

A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o. rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.

— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão. 

— Mas de manhã é quente.

Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas) tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade.

— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.

— Quente?

— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?

Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta: 

— Mas a senhora mora aqui perto?

— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...

A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.

— Seu filho?

— É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre... Mas Deus não vai me abandonar.

— É o caçula?

Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.

— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos.

Joguei o cigarro na direção do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.

— E esse? Que idade tem?

— Vai completar um ano. — E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro: — Era um menino tão alegre. Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado... A última mágica que fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os braços. E voou.

Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê-los.

— Seu marido está à sua espera? 

— Meu marido me abandonou.

Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora não podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.

— Há muito tempo? Que seu marido...

— Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém falar comigo com aquela tela no meio... Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.

Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

— A senhora é conformada.

— Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou. 

— Deus — repeti vagamente.

— A senhora não acredita em Deus?

— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas...

Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente de paixão: 

— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto... Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.

Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim 

— Estamos chegando — anunciou.

Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia: 

- Chegamos!... Ei! chegamos! 

Aproximei-me evitando encará-la.

— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.

Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

— Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.

— Acordou?! 

Ela sorriu: 

— Veja...

Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.

— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.

Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.

Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente.


Texto extraído do livro “Para gostar de ler – Volume 9 – Contos”, Editora Ática.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Sou o Pica e Você a Flor...

Gregório de Mattos foi um poeta da época do Brasil colônia, mas desde aquele tempo o cara colocava muita lenha na fogueira. Viveu na Bahia, mais precisamente Salvador, a primeira capital do país.
Era apelidado "Boca do Inferno", pois ele soltava os bichos contra tudo e todos com suas poesias satíricas, desde a cidade até os tipos que viviam na época: escravos, índios, fidalgos, padres, freiras, mercadores, ladrões e funcionários da corte portuguesa. E fazia o uso de palavrões pesados, o cara descia a ladeira totalmente quando o quesito era baixo calão. Imagina só para a época!?
Vale a pena conferir a sua obra, pois além das poesias satíricas, tem também as de cunho amoroso, reflexivo e religioso.
O cara zoava tanto e tocava o terror com suas poesias na colônia que foi preso e degredado (mandado para outra colônia) por muitas e muitas vezes.
Há uma porrada de poesias de Gregório que falam sobre putaria abertamente, vou postar uma delas logo abaixo também.
A história desse primeiro poema é a seguinte: uma freira, uma freirinha, coitada, brincou com a fisionomia delgada, magra, de Gregório e ele certamente ficou muito puto. Aproveitou o impulso e escreveu este poema em resposta à coitada da freira que imagino ter ficado com uma vergonha daquelas! Mas é como diz o ditado: NÃO MEXA COM O QUE ESTÁ QUIETO!
O segundo poema fala sobre a cidade de Salvador "De dous FF se compõem esta cidade: um furtar o outro foder", o título é auto explicativo. 
E o terceiro poema fala sobre alguns tipos que o Gregório adorava descer o pau.
Lá vai:



A uma freira que satirizando a delgada
fisionomia do poeta lhe chamou "Pica-Flor".


Se Pica-Flor me chamais,
Pica-Flor aceito ser,
Mas resta agora saber,
Se no nome que me dais,
Meteia a flor que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o Pica,
E o mais vosso, claro fica,
Que fico então Pica-Flor.





Define a Sua Cidade


De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito: 
por bem digesto, e colheito 
só com dous ff o expõe, 
e assim quem os olhos põe 
no trato, que aqui se encerra, 
há de dizer que esta terra 
de dous ff se compõe.

Se de dous ff composta 
está a nossa Bahia, 
errada a ortografia, 
a grande dano está posta: 
eu quero fazer aposta 
e quero um tostão perder, 
que isso a há de perverter, 
se o furtar e o foder bem 
não são os ff que tem 
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco: 
Bahia tem letras cinco 
que são B-A-H-I-A: 
logo ninguém me dirá 
que dous ff chega a ter, 
pois nenhum contém sequer, 
salvo se em boa verdade 
são os ff da cidade 
um furtar, outro foder.


TORNA A DEFINIR O POETA OS MAOS MODOS DE OBRAR NA GOVERNANÇA DA BAHIA, PRINCIPALMENTE NAQUELA UNIVERSAL FOME, QUE PADECIA A CIDADE.

Que falta nesta cidade? ...................... Verdade
Que mais por sua desonra ................. Honra
Falta mais que se lhe ponha .............. Vergonha.

O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onda falta
Verdade, Honra, Vergonha.


Quem a pós neste socrócio? ........... Negócio
Quem causa tal perdição? .................. Ambição
E o maior desta loucura?..................... Usura.

Notável desaventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.


Quais são os seus doces objetos?..............Pretos
Tem outros bens mais maciços? ........... Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos? ........ Mulatos.


Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.


Quem faz os círios mesquinhos? ............ Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas ? ................. Guardas
Quem as tem nos aposentos? ................. Sargentos.


Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos,


E que justiça a resguarda? ........................ Bastarda
É grátis distribuída? .................................... Vendida
Quem tem, que a todos assusta? .............. Injusta.


Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.


Que vai pela clerezia? .................................. Simonia
E pelos membros da igreja? ........................ Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha ..................... Unha.


Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.


E nos Frades há manqueiras? ................... Freiras
Em que ocupam os serões? ...................... Sermões
Não se ocupam em disputas? .................... Putas.


Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.


O açúcar já se acabou? ................................. Baixou
E o dinheiro se extinguiu? .............................. Subiu
Logo já convalesceu? ..................................... Morreu.


À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.


A Câmara não acode? .......................... Não pode
Pois não tem todo o poder? ..................... Não quer
É que o governo a convence? .................. Não vence.



Quem haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Vimos A Lua

Falando mais uma vez sobre literatura, esse poema é um dos que mais gosto, o li a primeira vez no ginásio (quinta a oitava série, antes da mudança de números das séries) em uma aula de português pela manhã. É o "Vimos a Lua", de Cecília Meireles.
Ele passa uma descrição bastante clara do que está sendo narrado, e esse é o motivo de sempre que leio essa poesia, me transporto para a mesma.
(Suspiro)...

Vimos a Lua nascer, na tarde clara.

Orvalhavam diamantes, as tranças aéreas das ondas
e as janelas abriam-se para florestas cheias de cigarras.

Vimos também a nuvem nascer no fim do oeste.

Ninguém lhe dava importância.
Parece uma pena solta – diziam.
Uma flor desfolhada.

Vimos a lua nascer, na tarde clara.

Subia com seu diadema transparente,
vagarosa, suportando tanta glória.

Mas a nuvem pequena corria veloz pelo céu.

Reuniu exércitos de lã parda,
levantou por todos os lados o alvoroço da sombra.

Quando quisemos outra vez luar,

ouvimos a chuva precipitar-se nas vidraças,
e a floresta debater-se com o vento.

Por detrás das nuvens, porém,

sabíamos que durava, gloriosa e intacta , a lua.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Caga No Çapato! O Auto da Barca do Inferno

Já postei vários trechos de livros que eu li e achei engraçado pacas.
Hoje eu  lembrei uma parte do livro O Auto da Barca do Inferno (escrito pelo português Gil Vicente em 1531) em que um louco chamado Joane ou simplesmente Joane, o Parvo entra na barca. É um linguajar totalmente sem nexo, doideira mesmo, mas eu achei muito engraçado. Sem falar na linguagem escrita do português antigo que parece ter muitos erros de português, mas não, era escrito assim mesmo...
A história, em suma, é a seguinte: Joane morre de caganeira, chega na barca em que o Diabo leva as pessoas ao inferno e aí começa a treta.

Vem Joane, o Parvo, e diz ao Arrais do Inferno:

PARVO Hou daquesta!

DIABO Quem é?

PARVO Eu soo.
 É esta a naviarra (barcaça) nossa?

DIABO De quem?

PARVO Dos tolos.

DIABO Vossa.
 Entra!

PARVO De pulo ou de voo?
 Hou! Pesar de meu avô!
 Soma, vim adoecer
 e fui má-hora morrer,
 e nela, pera mi só.

DIABO De que morreste?

PARVO De quê?
 Samicas (talvez) de caganeira.

DIABO De quê?

PARVO De caga merdeira!
 Má rabugem (raiva) que te dê!

DIABO Entra! Põe aqui o pé! 

PARVO Houlá! Nom tombe o zambuco (barquinho)!

DIABO Entra, tolaço eunuco (homem sem testículos),
 que se nos vai a maré!

PARVO Aguardai, aguardai, houlá!
 E onde havemos nós d'ir ter?

DIABO Ao porto de Lucifer.

PARVO Ha-á-a...

DIABO Ó Inferno! Entra cá!

PARVO Ò Inferno?... Eramá...
 Hiu! Hiu! Barca do cornudo.
 Pêro Vinagre, beiçudo,
 rachador d'Alverca, huhá!
 Sapateiro da Candosa!
 Antrecosto (coluna/costas) de carrapato!
 Hiu! Hiu! Caga no çapato,
 filho da grande aleivosa!
 Tua mulher é tinhosa
 e há-de parir um çapo
 chantado (enrolado) no guardenapo!
 Neto de cagarrinhosa!
 Furta cebolas! Hiu! Hiu!
 Excomungado nas erguejas!
 Burrela, cornudo sejas!
 Toma o pão que te caiu!
 A mulher que te fugiu
 per'a Ilha da Madeira!
 Cornudo atá mangueira,
 toma o pão que te caiu!
 Hiu! Hiu! Lanço-te üa pulha!
 Dê-dê! Pica nàquela!
 Hump! Hump! Caga na vela!
 Hio, cabeça de grulha!
 Perna de cigarra velha,
 caganita de coelha,
 pelourinho da Pampulha!
 Mija n'agulha, mija n'agulha!

Chega o Parvo ao batel do Anjo e diz:

PARVO Hou da barca!

ANJO Que me queres?

PARVO Queres-me passar além?

ANJO Quem és tu?

PARVO Samica (talvez) alguém.

ANJO Tu passarás, se quiseres;
 porque em todos teus fazeres
 per malícia nom erraste.
 Tua simpreza t'abaste
 pera gozar dos prazeres.
 Espera entanto per i:
 veremos se vem alguém,
 merecedor de tal bem,
 que deva de entrar aqui. 

Como visto, Joane era doido, mas não era malicioso e foi para o céu.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O Corcunda de Notre Damme

Acho que todos já conhecem o Corcunda de Notre Damme na versão em desenho animado de 1996, da Disney. Pois bem era a única versão que eu conhecia, não tinha curiosidade de conhecer a obra literária original de Victor Hugo publicada originalmente em 1831 e foi uma das maiores decepções que já tive com respeito a livros.
A história se desenrola até bem, mas o final me decepcionou bastante. Não vou contar aqui por que alguém que nunca leu vai ter a "surpresa". Mas o que deu vontade foi de rasgar o livro em centenas de pedacinhos, depois tocar fogo. É um final totalmente diferente do filme da Disney...

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Germinal: A Arte de Arrancar Sacos

Germinal é um livro de Émile Zola, trata-se de uma história sobre mineradores, que indignados com as condições de sobrevivência na vila mobilizam uma greve e em cima disto e de toda a violência resultante da desigualdade social que eles sofrem. É um livro com ar invernal, melancólico, segundo minha classificação. Vale a pena ler.
Mas dentre todas as partes, uma que eu sempre volto para ler, e me causa frouxos de riso, é a aparte que mulheres revoltadas fazem um quebra no mercado de um vendedor chamado Maigrat: usurário, muito avarento e que se aproveitava das mulheres necessitadas em troca de mercadorias
Em um momento de fúria, elas o perseguem e por fim, arrancam o saco escrotal do dono da venda, isso mesmo arrancam o saco peludo do cara, veja no trecho na íntegra:

"A turba tinha visto Maigrat esgueirando-se pelo teto do galpão. Na sua ânsia, apesar do seu peso, ele subira agilmente pela latada, sem se preocupar com as ripas que quebravam; e agora espichava-se ao longo das telhas, esforçando-se para atingir a janela. Mas a inclinação era muito forte, sua barriga o estorvava, suas unhas estavam sendo arrancadas. Assim mesmo ter-se-ia arrastado até a cumeeira, se não tivesse começado a tremer de medo de receber uma pedrada, já que a multidão, que ele não conseguia ver, continuava a gritar lá de baixo: 
— Pega o gato! Pega o gato! Vamos fazê-lo em pedaços!
E bruscamente, suas duas mãos se soltaram, ele rolou como uma bola, bateu na biqueira e caiu atravessado na parede-meia, tão desastradamente que foi espatifar-se na rua, onde abriu o crânio no ângulo de um marco. O cérebro esguichou. Estava morto. (...)

Em seguida recomeçaram os gritos. Eram as mulheres que se precipitavam, presas da embriaguez do sangue. 
— A justiça tarda mas não falha! Ah, porco, morreste, enfim! Rodearam o cadáver ainda quente e começaram a insultá-lo com gargalhadas, chamando de coisa imunda sua cabeça despedaçada, berrando na cara da morte o longo rancor de suas vidas sem pão. 
— Eu te devia sessenta francos, já estás pago, ladrão! — gritou a mulher de Maheu, tão enfurecida quanto as outras. — Nunca mais vais negar-te a me vender fiado... Espera! Espera! Vou engordar-te mais ainda. 
Começou a cavar a terra com as duas mãos, tomou dois punhados e os enfiou violentamente na boca do cadáver. 
— Vai, come! Vamos, come, come, tu, que nos comias! 
As injúrias eram cada vez mais violentas, enquanto o morto, estendido de costas, imóvel, olhava com seus grandes olhos vidrados o céu imenso de onde descia a noite. 
Aquela terra, enfiada na sua boca, era o pão que ele tinha recusado. E, de agora em diante, só comeria desse pão. Esfomear os pobres não lhe trouxera felicidade. 
Mas as mulheres ainda queriam vingar-se. Rodeavam-no, farejando como lobas. Todas arquitetavam um ultraje que as desafogasse. 
Ouviu-se a voz áspera da Queimada: 
— Vamos castrá-lo como a um gato! 
— Vamos! Ao gato! Mãos à obra! Esse asqueroso já fez demais o que não devia! 
Imediatamente a filha de Mouque começou a abrir-lhe a braguilha e a puxar-lhe as calças, enquanto a mulher de Levaque levantava as pernas do morto. E a Queimada, com suas mãos secas de velha, abriu-lhe as coxas nuas e empunhou a virilidade morta Segurou tudo e fez tal esforço para extirpar o membro que suas costas magras se distenderam e seus braços enormes estalaram. Mas a pele mole resistia, ela teve de atracar-se novamente e acabou arrancando o despojo, um pedaço de carne cabeluda e sangrenta que agitou no ar com uma gargalhada de triunfo: 
— Pronto, aqui está! 
Vozes esganiçadas saudaram com imprecações o horrível troféu: 
— Ah, desgraçado! Não engravidarás mais as nossas filhas! 
— Chega! Não te pagaremos mais com a nossa carne! Nunca mais teremos de abrir as pernas para conseguir um pão! 
— Olha, eu te devo seis francos... Queres fazer uma brincadeira por conta? Eu estou pronta, se tu ainda podes! 
Este gracejo sacudiu-as com uma gargalhada feroz. Passavam umas às outras a carne pingando sangue, como um animal tinhoso que cada uma tivera de suportar e acabavam de esmagar, que agora tinham ali, inerte, à sua mercê. Cuspiam em cima, arreganhavam os dentes, repetindo, numa furiosa explosão de desprezo: 
— Ele não pode mais! Ele não pode mais! Já não é mais um homem que vai para a cova! Começa logo a apodrecer inútil! A Queimada, então, espetou o naco de carne na ponta da sua vara, e, levantando-o bem alto, como um estandarte, empreendeu a marcha, seguida pela debandada ululante das mulheres".

Eu li esse livro em 2008, se não me engano, até hoje eu começo a rir quando eu lembro dessa parte.

sábado, 12 de setembro de 2015

Upa, toma diabo!

Quem já leu O Cortiço de Aluísio de Azevedo, já sabe do que eu tô falando. É uma das partes que eu mais rio no livro. É um livro que tem muita putaria das boas; sacanagem, mulher com mulher, porradas, facada é o que não faltam.

"Então principiou a verdadeira devastação. E a cada objeto que ela varria para o pátio, gritava sempre: 'Upa! Toma, diabo!'
- Aí vai o relógio! Upa! Toma, diabo!
E o relógio espatifou-se na calçada
- Aí vai o alguidar
- Aí vai o jarro!
- Aí vão os copos!
- Os cabides!
- O garrafão!
- O bacio!..."

Depois desta parte, houve um quebra-pau daqueles da mulher que estava jogando as coisas fora e seu marido.
Maior putaria e vale a pena ler.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Macabéa e Olímpico: é pra rir ou sentir pena?

Clarice Lispector é um gênio. Não sei se foi da intenção dela (provavelmente), ela deu um perfil indefinido aos personagens do livro A Hora da Estrela. O que eu quis dizer com isso é o seguinte: ela escreveu o perfil dos personagens de forma que quem lesse pudesse tirar suas próprias conclusões, pudesse escolher entre sentir pena da ignorância Macabéa, a personagem principal.
É o que vamos ver no trecho abaixo, eu particularmente ri. Não minto.

"- Na Rádio Relógio disseram uma palavra que eu achei meio esquisita: mimetismo.

Olímpico olhou-a meio desconfiado:
- Isso é lá coisa pra moça virgem falar? E para que serve saber demais? O Mangue está cheio de raparigas que fizeram perguntas demais.
- Mangue é um bairro?
- É lugar ruim, só pra homem ir. Você não vai entender mas eu vou lhe dizer uma coisa: ainda se encontra mulher barata. Você me custou pouco, um cafezinho. Não vou gastar mais nada com você, está bem?
Ela pensou: eu não mereço que ele me pague nada porque me mijei."


Postagem em destaque

Dia das Laranjas Assassinas

Finalmente, a sequência da Noite das Laranjas Assassinas está aqui! É a continuação da história, explorando os acontecimentos das laranjas...